Goiânia, 28/04/26
Tribuna Livre Goiás
ARTE · 11/05/2025

Morre Koyo Kouoh, a primeira mulher africana nomeada para a curadoria da Bienal de Veneza

Intelectual de projeção global, Kouoh faleceu aos 57 anos, às vésperas de anunciar o conceito da Bienal de 2026, que lideraria como curadora-chefe


Rede social/Koyo Kouoh,

Por A Redação

A morte de Koyo Kouoh, na madrugada de 10 de maio de 2025, aos 57 anos, interrompe de forma abrupta uma das trajetórias mais consistentes e transformadoras da curadoria contemporânea.
Nomeada como a primeira mulher africana a assumir a curadoria-geral da Bienal de Veneza — cuja 61ª edição está prevista para abril de 2026 —, Kouoh preparava-se para revelar, dias depois, o título e o conceito da exposição que marcaria seu ingresso definitivo na história da instituição.

O falecimento foi comunicado oficialmente pela organização da Bienal, que destacou, em nota, a dimensão intelectual, o rigor crítico e a visão singular da curadora. Posteriormente, informações confirmadas por familiares indicaram que a causa da morte foi um câncer, diagnosticado recentemente, o que confere à sua partida um caráter ainda mais inesperado diante da intensidade de sua atuação pública até os últimos meses.

Nascida em Douala, nos Camarões, em 1967, e criada em Zurique, na Suíça, Kouoh construiu uma trajetória que atravessa geografias e sistemas de pensamento. Sua entrada tardia no campo das artes — após passagem pelo setor financeiro — não apenas redefiniu seu percurso pessoal, como também tensionou as próprias estruturas institucionais que passou a habitar. Em 2008, fundou, em Dakar, a RAW Material Company, espaço que rapidamente se consolidou como núcleo de produção crítica, formação e articulação intelectual no continente africano.

À frente do Zeitz MOCAA, na Cidade do Cabo, desde 2019, Kouoh imprimiu uma inflexão decisiva na programação do museu, orientando-o para uma perspectiva pan-africana robusta, ao mesmo tempo em que reposicionava a instituição no circuito internacional. Sua gestão foi marcada não apenas pela excelência curatorial, mas por uma ética rigorosa, que compreendia o espaço museológico como território de disputa simbólica, memória e reescrita histórica.

Mais do que curar exposições, Kouoh elaborava dispositivos de pensamento. Sua prática recusava a neutralidade: articulava arte, política e cuidado como dimensões indissociáveis. Ao longo de sua carreira, participou de eventos de relevância global, como as Documentas 12 e 13, e contribuiu para a consolidação de plataformas como a feira 1:54 de Arte Contemporânea Africana. Em 2020, foi laureada com o Grande Prêmio Suíço de Arte / Prêmio Meret Oppenheim, reconhecimento de sua influência para além das fronteiras europeias.

Sua nomeação para a Bienal de Veneza não era apenas um marco simbólico, mas a culminância de uma prática que, há décadas, deslocava centros e reconfigurava narrativas. Kouoh compreendia a curadoria como gesto de escuta ativa e reparação histórica — um trabalho paciente de abertura de espaço para vozes historicamente marginalizadas.

A morte, ocorrida na Suíça, deixa em suspenso o projeto curatorial que seria apresentado em maio de 2025 e que já despertava expectativa no meio artístico internacional. Ainda não há informações amplamente divulgadas sobre cerimônias fúnebres.

Seu desaparecimento encerra uma presença física, mas não interrompe o campo de forças que ajudou a instaurar. O legado de Koyo Kouoh persiste nas instituições que redesenhou, nas redes que teceu e nas perguntas que deixou em aberto — questões que continuam a reverberar em um sistema da arte cada vez mais atravessado por urgências históricas, políticas e éticas.


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