Goiânia, 28/04/26
Tribuna Livre Goiás
ARTE · 30/12/2023

60ª Bienal de Veneza transforma silêncio em gesto crítico e reescreve a cartografia dos modernismos esquecidos

Mostra internacional abandona a grandiloquência e aposta na contenção para reposicionar narrativas apagadas, em uma inflexão histórica que ecoa debates decoloniais no circuito global da arte


Foto Divulgação

Por A Redação

Veneza (Itália) — A abertura da 60ª edição da Bienal de Veneza, no pavilhão central dos Giardini, inaugura uma virada curatorial de alta densidade simbólica: um memorial silencioso dedicado aos modernismos que permaneceram à margem da história oficial. Em vez de espetacularização, a exposição opta por um regime de contenção — uma estratégia que desloca o olhar e reposiciona o silêncio como instrumento de crítica histórica.

No coração do principal evento de arte contemporânea do mundo, o gesto não é apenas estético, mas estrutural. A mostra tensiona a narrativa hegemônica da modernidade artística — consolidada ao longo do século XX sob um eixo euro-atlântico — e propõe uma reconfiguração das suas bases. Modernismos outrora periféricos, oriundos de geografias frequentemente sub-representadas, emergem agora como vetores centrais de leitura.

A curadoria, segundo análise recorrente em veículos internacionais especializados, constrói uma exposição que opera menos como vitrine e mais como dispositivo de escuta. Arquivos, correspondências, registros fotográficos e obras de forte carga histórica são apresentados como fragmentos de uma memória interrompida. Não há excesso discursivo: a economia textual e a depuração espacial impõem ao visitante uma experiência de desaceleração — rara em grandes mostras globais.

Essa opção metodológica redefine o papel do público. Ao invés de consumo imediato, a Bienal exige interpretação, tempo e disposição crítica. O silêncio, nesse contexto, deixa de ser ausência e se afirma como linguagem — uma linguagem que evidencia lacunas, ausências e apagamentos estruturais na historiografia da arte.

A inflexão dialoga com um movimento mais amplo de revisão institucional, no qual museus e bienais vêm reavaliando seus acervos e narrativas sob perspectivas decoloniais. Em Veneza, esse processo ganha escala e visibilidade: o que se apresenta não é apenas uma reescrita simbólica, mas uma disputa concreta por legitimidade histórica.

Para além da dimensão curatorial, a 60ª edição reafirma a Bienal de Veneza como epicentro das tensões culturais contemporâneas. Ao transformar o pavilhão central em um campo de investigação crítica, a mostra desloca o debate da estética para a política da memória — questionando quem foi autorizado a produzir modernidade e quem foi sistematicamente excluído desse processo.

No léxico da arte global, o gesto é claro: não se trata de resgatar o passado como nostalgia, mas de reinscrevê-lo como força ativa no presente. O memorial silencioso proposto pela Bienal nãomonumentaliza — ele tensiona, expõe e rearticula. E, ao fazê-lo, sugere que a história da arte, longe de ser um território consolidado, permanece em disputa


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