ARTE · 24/04/2026
Solange Farkas assume presidência do júri da Bienal de Veneza e reposiciona o Brasil no eixo decisório da arte global
Curadora brasileira lidera colegiado integralmente feminino na 61ª edição do evento e imprime leitura crítica marcada por diversidade, tensões geopolíticas e protagonismo do Sul Global
Associação Cultural Video Brasil
Por Por Miriam Barbosa
A nomeação de Solange Farkas para a presidência do júri internacional da Bienal de Veneza 2026 consolida um movimento silencioso, porém estrutural, no campo da arte contemporânea: a reconfiguração dos centros de poder simbólico que historicamente orbitam o eixo Europa–Estados Unidos.
Confirmada para liderar o colegiado responsável pelas principais premiações — incluindo o Leão de Ouro para melhor participação nacional e melhor artista —, Farkas assume o posto em um momento de inflexão institucional da Bienal. A 61ª edição, prevista para abrir em maio de 2026, se desenha como uma das mais politicamente sensíveis das últimas décadas.
À frente de um júri composto exclusivamente por mulheres, a curadora brasileira compartilha a responsabilidade com nomes de peso da crítica e da gestão cultural internacional, como Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi. A composição, por si só, já indica uma inflexão discursiva — menos centrada em cânones tradicionais e mais voltada a narrativas plurais, transnacionais e descentralizadas.
A trajetória de Farkas sustenta esse deslocamento. Fundadora da Associação Cultural Videobrasil, ela construiu, ao longo de mais de quatro décadas, uma plataforma que antecipou debates hoje centrais na arte global: circulação de artistas do Sul Global, hibridismo de linguagens e a valorização da videoarte como campo expandido. Sua atuação também incluiu passagens por instituições como o Museu de Arte Moderna da Bahia e curadorias em circuitos internacionais na África, Ásia e Oriente Médio.
A edição de 2026 carrega ainda o peso simbólico do projeto curatorial concebido por Koyo Kouoh, falecida antes da abertura do evento. Sob o título “In Minor Keys”, a proposta aponta para uma escuta mais sensível das margens — uma espécie de cartografia das vozes historicamente silenciadas no sistema artístico internacional.
Nesse contexto, o papel do júri ultrapassa a função protocolar de premiação e passa a operar como instância crítica. Decisões recentes, como a exclusão de determinados países da disputa por prêmios em função de tensões geopolíticas, evidenciam que a Bienal volta a se afirmar não apenas como vitrine estética, mas como arena de posicionamento ético.
A presidência de Solange Farkas, portanto, não é um gesto isolado. Ela se insere em um rearranjo mais amplo, no qual curadores, artistas e instituições do Sul Global deixam de ocupar posições periféricas para assumir protagonismo na definição de critérios, narrativas e valores no circuito internacional.
Para o Brasil, trata-se de um reconhecimento que transcende a representatividade. É a legitimação de uma inteligência curatorial construída fora dos grandes centros hegemônicos, agora alçada ao núcleo decisório de uma das mais influentes plataformas de arte do mundo.
Em um cenário marcado por disputas simbólicas e redefinições de poder cultural, a Bienal de Veneza de 2026 sinaliza que o futuro da arte contemporânea será, cada vez mais, determinado por vozes capazes de tensionar fronteiras — geográficas, políticas e estéticas.
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