ARTE · 16/08/2026
Alice Florêncio transforma história escrita aos 9 anos em livro e revela a força do incentivo familiar.
Com o incentivo dos pais e o apoio dos avós, jovem escritora transforma uma história da infância em livro e mostra como o ambiente familiar pode despertar o gosto pela leitura, pela escrita e pela criação.
Por Miriam Barbosa
Aos 9 anos, Alice Florêncio Melo escreveu uma história sem imaginar que, seis anos depois, aquelas páginas ganhariam livro, ISBN, editora e seu nome na capa. O que nasceu como exercício de imaginação na infância tornou-se, aos 15 anos, sua primeira obra publicada: A História de Lulu e Larinha, lançada em 2026 pela Editora Palavra Viva, de Curitiba.
Estudante do Colégio Leonardo da Vinci, no 9º ano, Alice tem História como sua disciplina preferida. Sua estreia literária acontece em uma geração cercada por celulares, redes sociais, vídeos curtos e jogos digitais. Nesse cenário, sua trajetória revela algo que ultrapassa a publicação de um livro: o valor de uma família que reconhece, acolhe e estimula uma capacidade ainda em formação.
O texto permaneceu guardado durante seis anos. Os pais, incentivados pelo avô, decidiram transformá-lo em livro e preparar uma surpresa para Alice aos 15 anos.
A reação foi de surpresa genuína:
“Nunca imaginei que minha história viraria um livro.”
A publicação, porém, produziu mais do que emoção. Despertou na jovem autora o desejo de continuar escrevendo. Sobre uma nova obra, Alice responde com a naturalidade de quem já tem outra história em construção:
“Sim, já tem uma no forno.”
Uma história nascida da infância
Lulu e Larinha nasceram de referências muito próximas. Alice criou as personagens inspirando-se nela mesma e na irmã Ester. Entre elas, Lulu ocupa um lugar especial: “Lulu é meu personagem favorito”.
A origem da história revela um dos movimentos mais genuínos da literatura: transformar aquilo que se vive em imaginação e, depois, em narrativa. A criança observa o cotidiano, recria pessoas e situações e encontra palavras para contar o que sente e pensa.
No caso de Alice, esse processo encontrou dentro de casa um ambiente disposto a preservar e incentivar sua criação.
Quando o talento encontra primeiro abrigo em casa
O incentivo dos pais e o apoio dos avós foram decisivos para que o texto infantil deixasse de ser apenas uma lembrança e se transformasse em livro.

O avô, Paulo, escritor, advogado e pastor, participou desse percurso com conselhos e orientação na estruturação do projeto. Também assina o prefácio da obra, no qual descreve a neta como criativa, participativa e atenta, destacando seu envolvimento com os estudos, a proximidade com a irmã e o interesse pelos livros.
Ao final, define Alice como uma “cabeça pensante”, agora estreando como escritora.
Há algo particularmente bonito nesse percurso: antes de encontrar leitores fora de casa, Alice encontrou dentro dela quem guardasse suas palavras. Pais e avós foram, assim, mais do que incentivadores — foram testemunhas de uma habilidade que ainda começava a se revelar.
Entre História e imaginação
A preferência de Alice por História acrescenta outra dimensão ao perfil da jovem autora. A disciplina exige interpretação, compreensão de contextos e capacidade de estabelecer relações entre acontecimentos — habilidades que também dialogam com a literatura.
Entre o interesse pelo passado e a criação de histórias, Alice desenvolve uma relação com o conhecimento que vai além da simples absorção de informações. Há curiosidade, interpretação e desejo de criar.
Uma reflexão sobre a verdade
A História de Lulu e Larinha também nasceu de uma reflexão sobre valores. Alice conta que sua inspiração veio da maneira como compreendia, aos 9 anos, a questão da mentira. Para ela, dizer a verdade sempre foi um princípio importante.
Hoje, aos 15, espera que o livro alcance muitos leitores e que eles compreendam a importância de sempre contar a verdade.
A mensagem ganha significado justamente por ter sido registrada ainda na infância. Não é uma ideia construída posteriormente para a publicação, mas uma percepção de menina que permaneceu preservada ao longo de seis anos.
Entre o livro e a tela
A experiência de Alice também permite uma reflexão sobre infância, leitura e tecnologia. A tecnologia faz parte da vida contemporânea e oferece novas formas de aprender, criar e se comunicar, mas a leitura continua exigindo concentração, permanência e imaginação. Incentivar uma criança a ler é oferecer instrumentos para compreender o mundo; incentivá-la a escrever é mostrar que ela também pode criar uma interpretação sobre ele. Alice começou esse processo aos 9 anos, quando simplesmente escreveu uma história.
O primeiro livro, um novo começo
Alice não escreveu A História de Lulu e Larinha pensando em ser escritora. Escreveu porque tinha uma história para contar. Foi a família que guardou aquele texto, reconheceu seu valor e, anos depois, encontrou uma maneira de devolvê-lo à autora em forma de livro.
A obra tem 38 páginas e foi publicada em 2026 para o público infantojuvenil, com referências às relações familiares e aos valores morais. Mas talvez seu aspecto mais importante não esteja na ficha técnica, e sim no que a publicação provocou em sua autora.
A menina que escreveu aos 9 anos descobriu, aos 15, que suas palavras poderiam alcançar outras pessoas. Descobriu também que aquilo que um dia parecia apenas uma criação de infância poderia ganhar permanência, leitores e novos caminhos.
Aos 9 anos, escreveu sem saber onde sua história chegaria. Aos 15, recebeu o livro como surpresa. Entre uma idade e outra, teve pais e avós como primeiros incentivadores e o avô como orientador.
Agora, uma nova história está sendo escrita.
Em uma época em que crianças são frequentemente disputadas pelas telas, a trajetória de Alice lembra que a imaginação continua precisando de tempo, atenção e acolhimento.
Porque, muitas vezes, antes de uma criança reconhecer o próprio talento, é a família que o percebe, guarda e ajuda a floresce.
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