Goiânia, 08/11/26
Tribuna Livre Goiás
ARTE · 07/11/2026

Brasil e Índia se encontram pela arte: exposição reúne 28 artistas e 56 obras na Câmara Legislativa do DF

Com curadoria de Paulo Mello, projeto Conexão Brasil–Índia Através da Arte transforma pesquisa de campo, diversidade estética e intercâmbio cultural em uma experiência de diplomacia entre os dois países


Por Miriam Germano

Embaixador indiano reconhece a mostra como uma “Mini Índia no Brasil”.

A arte possui uma capacidade singular de aproximar universos, transcender fronteiras geográficas e estabelecer diálogos que resistem às limitações da linguagem. Por meio de diferentes expressões estéticas, culturas se reconhecem, histórias se encontram e civilizações revelam aspectos de sua identidade. É nesse território de intercâmbio, sensibilidade e construção de sentidos que se inscreve a exposição Conexão Brasil–Índia Através da Arte, inaugurada em 5 de novembro, na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

A abertura reuniu uma comitiva da Embaixada da Índia, autoridades do Distrito Federal, parlamentares, artistas convidados e representantes da imprensa. Entre as presenças de destaque esteve o embaixador da Índia no Brasil, S.E. Dinesh Bhatia, cuja participação conferiu especial significado diplomático à iniciativa.

A exposição reúne 28 artistas brasileiros e 56 obras, concebidas a partir de diferentes experiências, técnicas, materiais e interpretações sobre a cultura indiana. O conjunto apresenta uma pluralidade de perspectivas que, embora distintas em suas linguagens, converge em uma mesma proposta: estabelecer uma aproximação sensível e intelectual entre duas culturas de expressiva riqueza histórica e civilizacional.

Mais do que uma mostra coletiva, o projeto constitui uma experiência de intercâmbio cultural e diplomacia artística. Cada participante apresenta sua própria leitura da Índia, sem a pretensão de estabelecer uma representação única ou definitiva de sua identidade. O que se revela é uma construção plural, na qual diferentes gerações e sensibilidades brasileiras dialogam com uma das civilizações mais antigas do mundo.

O olhar do embaixador: uma Mini Índia no Brasil

Um dos momentos mais significativos da abertura foi a manifestação do embaixador Dinesh Bhatia, que demonstrou surpresa e admiração diante do resultado apresentado pelos artistas brasileiros.

Ao observar a diversidade de idades, trajetórias, técnicas e materiais empregados nas obras, o diplomata destacou a capacidade dos participantes de interpretar e representar a Índia com profundidade e sensibilidade, mesmo sem terem estado fisicamente no país.

“Uma Mini Índia no Brasil.”

Foi nessa perspectiva que o embaixador reconheceu a exposição, ressaltando a qualidade das representações e a maneira como artistas de diferentes gerações conseguiram traduzir elementos da identidade indiana em suas obras.

Sua observação ganha particular relevância diante de uma característica singular do projeto: os artistas não precisaram conhecer presencialmente a Índia para estabelecer uma conexão visual e cultural com o país. Conseguiram fazê-lo a partir das referências, dos estudos e das informações que fundamentaram a proposta curatorial.

O reconhecimento do diplomata evidencia uma das dimensões mais extraordinárias da criação artística: a possibilidade de alcançar e interpretar outras realidades para além da experiência física. A pesquisa, o conhecimento, a imaginação e a sensibilidade também constituem caminhos legítimos de aproximação entre culturas.

Uma obra não é apenas a reprodução de uma paisagem ou de um símbolo. É resultado de repertório, percepção e capacidade de atribuir novos significados àquilo que se observa e se interpreta.

Nesse sentido, a manifestação do embaixador representa um reconhecimento particularmente expressivo não apenas aos artistas, mas também ao processo de pesquisa e construção intelectual que tornou possível a exposição.

Paulo Mello: a pesquisa que tornou possível a conexão

Por trás da concepção e da realização da exposição está o trabalho de Paulo Mello, artista e curador responsável por estruturar o projeto e estabelecer as bases para a construção artística da mostra.

Sua participação foi determinante para que a iniciativa se concretizasse. Antes de reunir os artistas e iniciar o desenvolvimento das obras, Paulo Mello esteve na Índia para realizar um estudo de campo. A experiência permitiu conhecer referências culturais, observar paisagens, arquitetura, símbolos, tradições e manifestações que constituem a identidade daquele país.

O conhecimento adquirido nessa imersão foi compartilhado com os artistas e transformado em orientação para o processo criativo. A partir desse repertório, cada participante desenvolveu sua própria interpretação, utilizando sua linguagem plástica para traduzir as referências indianas em obras autorais.

Esse percurso confere ao projeto uma dimensão que ultrapassa a organização de uma exposição convencional. Houve pesquisa, experiência direta, mediação cultural e construção de uma proposta artística coletiva.

O trabalho de Paulo Mello foi, portanto, essencial para que a conexão entre os dois países deixasse o campo da intenção e se materializasse em 56 obras. Seu olhar de pesquisador e artista possibilitou que 28 criadores brasileiros, mesmo sem uma experiência presencial na Índia, construíssem representações capazes de despertar o reconhecimento e a admiração da própria representação diplomática indiana.

Há, nessa atuação, uma compreensão ampliada do papel do curador. Sua função não se restringe à seleção e à disposição de obras em um espaço expositivo. Envolve investigação, elaboração conceitual, articulação de repertórios e criação das condições para que diferentes expressões artísticas encontrem um eixo comum de diálogo.

Ao levar sua experiência de campo aos artistas, Paulo Mello ofereceu mais do que referências visuais: proporcionou subsídios culturais para que cada criador desenvolvesse uma interpretação própria, preservando sua identidade estética.

O reconhecimento manifestado pelo embaixador confere especial significado ao resultado desse trabalho curatorial. A exposição demonstra como a pesquisa e a mediação artística podem transformar conhecimento cultural em uma experiência coletiva de grande alcance simbólico.

Quatro artistas representam as vozes dos 28 participantes

A pluralidade artística é um dos elementos centrais da exposição. São 28 criadores, com diferentes trajetórias, gerações, pesquisas e técnicas, reunidos em torno de uma mesma proposta cultural.

Durante a cerimônia de abertura, quatro artistas falaram em nome do grupo, representando simbolicamente os demais participantes e compartilhando a dimensão coletiva da iniciativa.


Ray do Castro, pioneira das artes em Brasília, possui uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada à pintura e à formação artística. Sua atuação é marcada pelo compromisso com a construção de uma identidade visual própria para a capital federal. Trabalha para criar uma arte genuinamente brasiliense, capaz de expressar as particularidades culturais, históricas e simbólicas da cidade. Sua contribuição integra a trajetória de consolidação e valorização das artes visuais no Distrito Federal.

Toninho de Souza é um renomado artista plástico, pintor, escultor, gravador, muralista e pioneiro da arte digital, radicado no Distrito Federal. Com uma trajetória expressiva nas artes visuais brasileiras, desenvolve uma produção marcada pela pluralidade de linguagens. Sua atuação também está associada à Melancia Cultura e à criação do movimento artístico Melantucanarismo, que integra sua contribuição à pesquisa e à expressão artística contemporânea.

Ronaldo Ferreira tem na técnica do batik uma de suas principais referências de expressão artística. O procedimento, caracterizado pela utilização de reservas para a aplicação de cores, permite construir composições de particular riqueza visual, nas quais matéria, pigmento e processo se articulam na criação.

Hemerson Joca desenvolve uma pesquisa plástica que explora as possibilidades expressivas do plástico derretido, incorporando materiais não convencionais à construção de sua linguagem visual. Sua trajetória também registra a conquista do primeiro lugar no Salão de Arte Riachuelo, da Marinha do Brasil, realizado com apoio da Casa Thomas Jefferson e do Ministério da Defesa.

As manifestações desses quatro artistas representaram mais do que participações individuais. Foram expressões de um coletivo que reúne diferentes experiências, concepções estéticas e percursos criativos, demonstrando como a diversidade pode constituir uma força de criação e diálogo.

A escolha de representantes com trajetórias e pesquisas tão distintas também evidencia a riqueza do conjunto: a unidade da exposição não está na uniformidade estética, mas na convergência de propósitos.

28 artistas, 56 obras e um propósito comum

O conjunto de 56 obras representa a essência do projeto: a possibilidade de interpretar uma mesma cultura por diferentes perspectivas. Cada artista contribui com seu repertório, sua identidade e sua maneira particular de compreender o universo indiano.

A diversidade de técnicas e materiais amplia a experiência do visitante e demonstra que não existe uma única maneira de traduzir artisticamente uma civilização. A Índia apresentada na exposição é plural, construída por olhares brasileiros que dialogam com sua história, espiritualidade, arquitetura, cores e tradições.

Essa multiplicidade constitui uma das maiores riquezas da mostra. Cada obra carrega uma escolha estética, uma percepção e uma maneira singular de assimilar referências culturais. O resultado não é uma coleção de reproduções, mas um conjunto de interpretações autorais que preservam a individualidade de seus criadores.

Ao aproximar artistas brasileiros de referências de outra civilização, o projeto também promove conhecimento, estimula a pesquisa e amplia as possibilidades de intercâmbio entre os dois países.

As 56 obras compõem, assim, um território de encontro entre diferentes sensibilidades. São 28 olhares que não procuram falar pela Índia, mas estabelecer com ela uma relação artística, respeitosa e criativa.

A arte como instrumento de diplomacia cultural

A realização da Conexão Brasil–Índia Através da Arte reafirma o papel da cultura como elemento estratégico nas relações entre nações. A diplomacia não se estabelece apenas por acordos institucionais, encontros oficiais ou relações comerciais. Também se fortalece por meio da produção intelectual, da criação artística e do reconhecimento das identidades culturais.

A diplomacia cultural encontra na arte uma de suas expressões mais sensíveis. Ao promover o conhecimento de outras civilizações, estimula o reconhecimento da diversidade e cria condições para que diferentes sociedades estabeleçam relações fundamentadas no respeito, na curiosidade intelectual e na troca de experiências.

Nesse sentido, a presença do embaixador Dinesh Bhatia e da comitiva diplomática na abertura confere à exposição uma dimensão institucional particularmente significativa. Mais do que prestigiar uma iniciativa artística, o encontro permitiu que a cultura indiana fosse reconhecida e reinterpretada por artistas brasileiros, em um movimento de aproximação que valoriza a criação como linguagem de entendimento entre os povos.

Ao reunir 28 artistas, 56 obras e uma pesquisa curatorial construída a partir de uma experiência direta na Índia, Paulo Mello e os participantes dão forma a um projeto no qual arte e diplomacia se encontram sem que uma se sobreponha à outra.

A exposição demonstra que a aproximação entre culturas não exige a diluição de suas diferenças. Ao contrário, é justamente na preservação das identidades e na liberdade de interpretação que o diálogo se torna mais fecundo.

Talvez resida aí a contribuição mais expressiva dessa iniciativa: demonstrar que a arte não precisa reproduzir a experiência para alcançar sua essência. Pode interpretá-la, interrogá-la e reinventá-la, preservando a distância necessária à criação e a sensibilidade indispensável ao reconhecimento.

Entre o Brasil e a Índia, 56 obras estabelecem um diálogo que nenhuma fronteira é capaz de conter. São 28 olhares brasileiros sobre uma civilização milenar — e a demonstração de que, quando a arte encontra a cultura, a distância deixa de ser obstáculo e se transforma em possibilidade de encontro.


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